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Viva!!! As férias acabaram!!! – Por Sabrina Martins Schvarcz

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Foi com muita alegria e com um certo brilho no olhar, que eu deixei meus cinco filhos na porta da escola na última segunda-feira: Luana, 10 , Alex, 8 , e as trigêmeas Melissa, Cecilia e Laura, de 2 anos e 3 meses. E no meio de muito choro de criança, e de lágrimas de pais ainda em fase de adaptação, despedi-me dos meus filhos mais velhos, e vi minhas três pequeninas sendo levadas por suas novas professoras, também contribuindo com suas porções generosas de lágrimas, beicinhos, e chorinhos.

Passei pelo portão e suspirei aliviada: “Ufa, as férias acabaram!”. E que atire a primeira pedra aquela mãe de cinco filhos que deu férias para a babá e viajou sozinha com a trupe para o Ceará! Com direito a catorze dias de banho frio, dezoito trocas de fraldas por dia, filho perdido no Beach Park, passeio com a criançada no circo, e show de horror no voo de volta para São Paulo. Afinal, quem poderia imaginar que as três chorariam tanto para sentar ao meu lado? E que eu, mesmo inundada do maior amor do mundo, tenha sido fabricada como todas as outras mães, apenas com dois lados?

Mas a verdade é que, na contramão da maioria das mães que conheço,  sou uma mãe desprendida dos filhos. Não sei se por instinto de sobrevivência, por herança genética, ou por coincidência do destino. Mas que fique bem claro, que por falta de amor, definitivamente não é.

Porque amar não é só proteger, é também deixar cair, e ensinar a levantar. Amar, não é dar de tudo, é também ensinar que nem sempre podemos ter tudo o que queremos. Amar, não é sofrer pelo filho, mas enchê-lo de coragem para que possa superar os desafios do mundo. É ensinar a subir os degraus, enquanto ainda podemos estar embaixo da escada, amortecendo a queda. Essa é a parte mais difícil da maternidade: saber quando precisamos fechar as portas, para que sozinhos eles possam encontrar e abrir as janelas da vida.

Nós mães desempenhamos um papel fundamental no processo de autonomia e construção da autoestima de nossos filhos. Eles começam a existir dentro de nós, e mesmo após o parto, são seres extremamente dependentes da mãe.  Por esse motivo, “cortar o cordão umbilical” é algo que não se faz apenas com a tesoura. Leva tempo, exige coragem, maturidade e aceitação por parte dos pais. Porque o tempo é implacável, e o crescimento é algo natural, irreversível e fatal.

Ainda assim, na difícil e excitante arte de criar filhos, não existe certo e errado. O que existe, são comportamentos mais ou menos adequados, opiniões diversas de especialistas e leigos, o famoso sexto sentido de cada mãe, e ainda o tempo de cada criança.  O que é indiscutível neste processo, é a capacidade dos filhos em captar nossas aflições e ansiedades, de sentir nossa insegurança e nosso medo, e de nos fazer questionar toda nossa existência com alguns minutos de manha, choro, dor, ou sofrimento.

E por que é que estou entrando nesse assunto? Porque eu não me considero uma mãe desnaturada, mas nem tampouco uma mulher-maravilha! Eu tenho também minhas inseguranças e questionamentos no que se refere a criação dos meus filhos.

Desde que as trigêmeas nasceram, li muito sobre o universo dos múltiplos, pesquisei opiniões de especialistas, pais, profissionais, e optei por criá-las da forma mais independente possível uma da outra. Separei lençóis, toalhas e roupas desde a maternidade, todas devidamente etiquetadas com o nome, em suas respectivas gavetas. Procurei sempre vestir as meninas com roupas diferentes, respeitando o estilo, as características, e as preferências de cada uma. É claro que algumas vezes não resisto e coloco roupas iguais para fazer uma “graça”, especialmente com as duas idênticas (Melissa e Cecilia são univitelinas e Laura é fraterna). Essa é uma “satisfação” pessoal que só quem é mãe de gêmeos idênticos é capaz de entender… Mas que segundo a maioria dos especialistas, reflete de maneira negativa na construção da individualidade de cada uma delas.

E de tanto ver a Cecilia olhando no espelho e dizendo “é a Melissa”, de ver a Laura sempre de canto brincando sozinha, e de ver ainda que quando a Melissa se machuca, a Cecilia chega a se morder só para ter um machucado também, resolvi mudar radicalmente o rumo dos trilhos. Uma semana antes do reinício das aulas, procurei a coordenadora  da escola e pedi para que separassem as trigêmeas de sala. Mas aí veio a dúvida cruel: como separar três gêmeas em duas classes?

Minha prioridade era separar as idênticas, para que elas adquirissem uma identidade própria, e deixassem de ser a “Ciça-Melissa”, como são chamadas por muitos amiguinhos. Pensei em fazer a transição aos poucos, começando com as três na mesma sala, para que pudessem conhecer os novos amigos. Dessa forma, poderia deixar a separação oficial para o segundo semestre, de forma que a Melissa, que é mais líder, ficaria sozinha com os amigos antigos, e a Cecilia e a Laura ficariam juntas na outra sala, com os amigos novos. Minha ideia me pareceu brilhante, mas a opinião da coordenadora foi bem diferente:

“Se vai separar, melhor que seja desde o início. E deixa a Melissa sozinha na sala nova, porque ela logo vai fazer novas amizades. Se deixar a Cecilia e a Laura na classe nova elas terão uma à outra e não sentirão necessidade de interagir com os novos colegas.” Engoli seco. Como assim? Deixar a Melissa sozinha? Em uma classe com crianças que ela não conhece e que ainda estão se adaptando à escola? Enquanto todos os amiguinhos que ela adora e já conhece estão na outra classe com as outras duas irmãs? Pausa para um momento de pânico, exteriorizado por mim em forma de olhos arregalados e silêncio, seguido por novas palavras da coordenadora:  “Se for muito sofrido para elas, voltamos atrás e tentamos em uma outra oportunidade. Mas separar gêmeos é o procedimento indicado pela escola, e quanto mais cedo, menos traumático para eles.”  Com sua voz calma e tranquila, e a experiência de tantos anos trabalhando com educação infantil, ela me convenceu.

Decisão tomada, sofrimento encerrado. Apliquei táticas neurolinguísticas para me nutrir de muita segurança e firmeza na hora de contar a novidade para o marido, com a babá, a tia, o tio, a irmã, o irmão, o avô, a avó. Todos morrendo de pena da Melissa, e eu, dura na queda, cheia de confiança na minha pequena. Chamei a Melissa e expliquei “Mel, a Cecilia e a Laura vão ficar em uma classe com a professora Ana, e você vai ficar na outra classe com a professora Carol, tá? Não precisa chorar, você vai ter uma classe só sua e vai fazer novos amiguinhos! Vai ser muito legal!” Dei um sorriso amarelo e ela respondeu: “A Mel vai na ota casse, né?”. E eu pensei comigo mesma, coitadinha da Mel, não entendeu nada…

Mas uma semana se passou e querem saber?  Ela tinha entendido cada palavra do que eu falei. E a coordenadora, pelo menos nesse caso, estava cheia de razão. E muito embora a Cecilia tenha chamado a Mel por diversas vezes durante o dia,  ela parou um pouco de copiar a irmã em tudo, e a tomar para si características que nem são dela! Sempre que a Ciça chama pela Mel, as professoras estão autorizadas a levar uma para ver a outra. E a Melissa depois de passar um tempo na classe das irmãs fala para a professora: “Calol eu quelo i pa minha casse. Essa não é a casse da Mel”. Na hora do parque elas brincam juntas, e no momento da despedida Melissa sempre conforta a irmã: “Ciça, você é com a Laula, a Mel é sozinha na ota casse. Não picisa cholá.”

Por mais difícil que seja lidarmos com o fato de que nossos filhos estão crescendo e se tornando cada dia mais independentes de nós, precisamos aprender a encontrar alegria na conquista da autonomia. Não podemos deixar que nossa insegurança se transforme em sofrimento, pois dessa forma estaremos interferindo diretamente nos anseios, medos e comportamentos que eles terão ao longo da vida.

É preciso ver magia naquele momento em que eles viram as costas e entram na escola sem nem olhar para trás. É preciso aplaudir e comemorar o primeiro passeio com a escola, a primeira noite na casa da vovó, o primeiro acampamento, a primeira viagem sem filhos. Tudo tem seu encanto e sua pureza, até mesmo o momento em que eles estão prontos para viver o primeiro amor. Mas esse já é assunto para uma próxima vez.

 
formaes SABRINA MARTINS SCHVARCZ, 
 Jornalista por formação, bailarina por paixão, 
 mãe por vocação e 
 diretora do BALLET CARLA PEROTTI por opção.
 http://bcperotti.com.br