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Quando é hora de parar

Meu dia começou cedo como de costume. Na verdade, era ainda madrugada quando minha pequena Cecilia, que desfraldou há duas semanas, fez xixi na cama. Chegou do meu lado chorosa e meio dormindo, e eu levantei, troquei o pijama da pequena, coloquei-a na cama com a irmã Melissa, e voltei a dormir.

Algumas horas depois, recebi a visita do meu chicletinho Laura. Como já estava quase na hora de levantar, puxei ela para cima da cama e deitamos abraçadinhas. Seria uma delícia se eu ou ela tivéssemos conseguido dormir, mas definitivamente Deus não me deu, e nem deu a nenhum dos meus filhos, o dom da cama compartilhada. Entre socos, roncos e pontapés, ficamos nos estranhando por mais alguns minutos, até que o despertador deu o tiro de misericórdia: hora de levantar!

O relógio marcava seis e quarenta quando entrei na sala, e minha filha mais velha já estava prontinha sentada no sofá teclando no celular. Luana, que tem onze anos e é uma menina bastante responsável, acorda sozinha todos os dias, se arruma, toma café e vai para escola de perua, pois entra mais cedo que os irmãos. Fiz o cheque para pagar o motorista, me despedi, e fui acordar o resto da filharada.

Milagrosamente, meu filho Alex, de 9 anos, levantou de primeira. Fato inédito, já que Alex é um dorminhoco nato, daqueles que quando bebê dormia no trocador antes mesmo de ser colocado no berço.  Mas ontem à noite, combinamos que se ele não desse trabalho para acordar, eu o deixaria dormir meia hora mais tarde. E já pensando em ter mais tempo de minecraft antes de dormir, ele logo pulou da cama e fez valer mais uma conquista. Alex é meu filho mais difícil que mais demanda energia na hora de fazer barganhas. É preciso muita paciência e disciplina para lidar com esse meu filho negociador e viciado em joguinhos eletrônicos.

Minhas trigêmeas já foram mais fáceis de serem acordadas. Ultimamente têm chorado para sair da cama, o que com o frio que tem feito pela manhã é até compreensível. Mas o pior de tudo, é que aos sábados, domingos e feriados, como num passe de mágica, elas acordam sozinhas, serelepes e bem humoradas às seis e meia da manhã. Por mais que eu me esforce, não consegui ainda encontrar uma explicação aceitável para esse fenômeno catastrófico e antinatural, e me recuso a aceitar que aos três anos de idade elas saibam diferenciar uma sexta-feira de um sábado sem que eu lhes diga nada. Mais uma das muitas ironias da maternidade, que nem Freud nem Einstein conseguem explicar, e nem Piaget ou Pinochet, conseguem resolver.

Para tornar o processo triplo de trocar de roupa, tomar café, pentear os cabelos e escovar os dentes, eu já preparo as lancheiras na noite anterior, deixo as malas prontas, e arrumo a mesa do café antes de acordá-las. Mas ultimamente, o que tem resolvido mesmo, é mergulhar de cabeça no universo mágico das minhas pequenas, e passar minha manhã adestrando três lindos cachorrinhos: Fifi Melissa, Nina Cecilia e Bob Laura. Enquanto minhas filhas meninas-humanas são chatinhas para acordar, não querem colocar uniforme, não gostam dessa e daquela meia, não deixam pentear o cabelo e fazem escândalos absurdos por causa da cor de um canudo para tomar um simples iogurte, meus cãozinhos são dóceis, bonzinhos, obedientes e amáveis. Basta eu dizer: “Fifi, vem colocar a roupa para ir para a escola de cachorros!”, e lá vem ela toda serelepe e sorridente, abanando seu rabinho imaginário para mim. Ajeita as patinhas para colocar a calça e a blusa, senta para colocar a meia e o tênis sem reclamar. Da mesma forma, basta eu chamar uma vez: “Nina, venha que sua comida já está no seu pratinho!”, que ela vai engatinhando até a cozinha e come toda a comidinha com gosto, raspando o prato sem reclamar. “Bob , vem colocar um enfeite no pelo que hoje é dia de ballet dos cachorros!”, e latindo, minha terceira cachorrinha vem feliz e contente colocar lacinhos, escovar os dentes e pentear os cabelos! E então todos saem pela porta feito música de orquestra, da qual sou maestrina soberana,  orientando e conduzindo minha filarmônica.

Encontrar poesia às sete horas da manhã em uma casa com cinco crianças não é tarefa fácil. Fácil mesmo, e quase inevitável, é render-se aos gritos, berros, manhas, castigos, ameaças e palmadas. Mas cansada desse reco-reco desestimulante, resolvi entrar para o clube do au-au. E passar a manhã latindo poderia soar trágico se não tivesse se tornado tão cômico.

E o motivo desse transbordar repentino de romantismo materno, tem uma explicação bastante razoável: eu pedi demissão. Pedi demissão do cargo de mulher maravilha e resolvi dar um tempo do trabalho. Se parei ou fui parada, depende um pouco do ponto de vista, mas o fato é que tirei das minhas costas um fardo equivalente a toneladas e toneladas que eu jamais seria capaz de mensurar. O peso da culpa, do fracasso, das tentativas frustradas, da falta de tempo, das bolas quadradas que eu ia entregando para todos durante o dia, sempre tentando fazer o melhor, mas sem conseguir fazer ao menos o mínimo necessário. No fim das contas, eu já estava praticamente inerte no meu próprio emaranhado de coisas para fazer e por fazer. Presa em uma teia de tarefas que eu ia deixando para trás ao longo dos dias, e que eu ia carregando pela rua feito bolas de presidiário. Nos últimos meses o cansaço era tanto que eu já nem produzia mais nada. E ficava cansada não pelo que fazia, mas pelo que deixava de fazer. Pelas consultas médicas esquecidas, os aniversários ignorados, os presentes não comprados, os convites não enviados, os livros de escola não providenciados, as contas vencidas, a bagunça, o medo, o caos. Um caos externo e interno que causou um desespero tão grande, que literalmente começou a me faltar o ar. E com o alarme de emergência tocando, veio o pânico. Pânico de sair para trabalhar, pânico de cuidar dos cinco filhos, pânico de olhar para tudo que não estava sendo feito. Pânico de viver. E foi então que marido e eu decidimos que era hora de aposentar meu vestido de super-herói.

Na primeira semana em casa, eu dormi. Aprontava as crianças para a escola, voltava para cama e dormia até meio dia. Lentamente, comecei a também enxergar as coisas ao meu redor. Primeiro eu avistei uma montanha de sacolas, entulhos e coisas num canto do meu quarto. Malas de viagens que fiz há seis meses atrás, roupas para doar, para vender, para arrumar. Sacolas e mais sacolas com material de trabalho, brinquedos velhos, carrinho de bebê, moisés, cabide, perfume velho, carregador de celular, vaso quebrado, porta retrato sem foto,  grade de berço e uma infinidade de quinquilharias e objetos não identificados. Só uma pergunta me vinha à mente: Há quanto tempo eu mantinha este depósito dentro do meu quarto sem nem ao menos perceber?

Aos poucos fui me entregando a outras vontades então desconhecidas. Vontade de ir ao supermercado e ver a geladeira cheia de iogurtes para agradar o marido. Vontade de ir ao hortifrúti comprar as frutas preferidas para o lanche das crianças. Vontade de parar naquele açougue que eu passei na frente outro dia, com promoção de filet mignon. Eu sempre fiz as compras da casa, mas não tinha ideia do preço das coisas. E da mesma forma, as datas, os nomes, as consultas, as listas, os preços, tudo foi virando informação passageira, que eu ouvia, mas não escutava, olhava, mas não via.

Nesse primeiro mês longe do trabalho, tenho dedicado uma parte do meu tempo a arrumar uma casa. Afinal, arrumando fora, é que começo o meu processo de arrumação interior. Ao mesmo tempo que vou me desfazendo de roupas velhas, brinquedos quebrados e objetos sem utilidade, também vou deixando para trás sentimentos ruins, cobranças, mágoas, desilusões. Sem pressa, eu vou tirando os nós da minha alma e buscando um destino mais sereno, sem tantas pedras no caminho, que já não aguento carregar.

Durante meus novos dias cheio de horas, vou do inferno ao céu e do céu ao inferno inúmeras vezes. Tem dias que minha cama parece ter um ímã contra o qual não consigo e nem quero resistir. Meu colchão me abraça e me enfraquece, e lá eu fico, na minha areia movediça de culpas e cobertores. Percebo então que ficar em casa não é só flores como eu pensava. Não produzir é um prato cheio para a inércia e para a depressão. Ainda mais na era dos smartphones, que te dão a falsa ilusão de que se está vivendo pelo simples fato de estar conectada com o mundo.

Eu sinto falta de trabalhar, embora no momento não sinta vontade de ir. Ainda tenho medo das muitas bolas de ferro que me aguardam, com suas algemas sem chaves e sem segredos. Por hora, vou me dedicar a desfazer meus nós, deglutir meus sapos, e silenciar a minha mente, para que então eu possa ouvir a voz dos meus filhos soando novamente como música para meus ouvidos.

Tem outros dias que acordo tranquila e serena, cheia de vontade de viver e de recuperar o tempo perdido na exaustiva missão de ser mulher maravilha. Tenho tido momentos preciosos ao lado de amigas queridas, minha melhor terapia desde então. Nossos almoços, cafés, jantares, idas ao salão e passeios no shopping, são minha dose diária de endorfinas, meu momento de lembrar que apesar de estar sem trabalhar, eu ainda posso ser somente eu em alguns momentos. E entre momentos de calmaria e preguiça, vou abrindo espaço para a mãe que há em mim ter vontade de voltar para casa mais cedo, disposição para curtir a filharada, e principalmente para compor minhas sinfonias.

Maternidade é algo difícil de se dosar. Se você se entrega demais, ela te engole, se não dá o suficiente, te degola. Agora posso dizer que tenho tempo para mim e para os meus filhos, e que esse tempo que tenho com eles cresceu em quantidade e qualidade. O que era antes como uma rosa cheia de espinhos, hoje é um bosque de cerejeiras em flor. As crianças estão mais calmas, mais tranquilas, e me ouvem muito melhor agora que não grito o tempo inteiro. A verdade, é que o tempo é nosso bem mais precioso. Mas ele é intocável, e está em constante movimento, como um eterno fio e água escorrendo por entre os dedos. A vida passa rápido demais, e é preciso parar de vez em quando, antes que a nascente se transforme em um grande rio de águas passadas. Por isso existe a hora de plantar, a hora de colher, e a hora de parar. Como diria o grande sábio Mark Twain: “Quando você estiver sem tempo para descansar, esta é exatamente a hora certa.”

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colaboradora SABRINA MARTINS SCHVARCZ, 
 Jornalista por formação, bailarina por paixão, 
 mãe por vocação e 
 diretora do BALLET CARLA PEROTTI por opção.
 http://bcperotti.com.br


Imagem Capa: Shutterstock

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1 comentário

  1. Shell

    Eu fiquei desumanamente cansada depois de ler o teu post! De verdade, num nível “acordem-me só na primavera”. Adorei o blog e vou ler mais algumas páginas, antes que alguém acorde por aqui pedindo leite!