categorias: Vida de Mãe

Opinião da especialista – “O Desfralde”

Crianças, quase sempre, se não sempre, fazem coisas que os adultos não entendem e quase sempre, se não sempre, o que parece birra, teimosia ou mania querem dizer alguma coisa.

Podemos não entender e, com certeza é difícil mesmo, mas saber que tem algo escondido pode nos ajudar a olhar para o que nos escapa com mais calma, seja com nossa dificuldade em entender, seja com a limitação das crianças em explicar.

Tirar a fralda dos pequenos se apresenta como um destes momentos de desafio na vida dos pais. E surpreende a facilidade de uns e a morosidade de outros na desenvoltura em relação ao cocô e ao xixi.

 Por que a diferença entre o controle de um e outro?

De fato, cocô e xixi não constituem uma dupla inseparável. Adquirem importâncias diferentes na avaliação dos pequenos e conquistar o controle de um e outro exige deles um passo importante de crescimento.

Pensemos juntas.

Um e outro apresentam-se como os primeiros “produtos” que crianças criam. A urina por ser quente, sair em jato, muitas vezes se apresenta como uma arma fantasiosa na luta contra inimigos imaginários. À medida que se sentem mais fortes, as crianças substituem essa defesa primeira pelo uso dos braços, das pernas e da própria voz. Talvez essa possibilidade de substituição favoreça o controle da micção e possibilite que, para alguns, se faça com maior facilidade. Quanto ao cocô, vale lembrar que em certas culturas ou grupos humanos as fezes são tidas como “obras”, evacuar é sinônimo de “obrar”, referindo-se ao orgulho que crianças sentem do que delas brota: grande, poderoso, visível. Sem falar, do próprio prazer de se perceberem exalando cheiros e lambuzados em suas fraldas pesadas, por mais que pareça absurdo aos olhos dos adultos este lapso civilizatório. Ponto de vista que permite considerar o desfralde como ato de ousadia e coragem dos pequenos, que exige deles a renúncia a um tipo de prazer, a despedida de um momento inicial da vida onde a fralda abrigava o que o corpo produzia e a destruição de um produto considerado um bem, uma criação.

Deste modo, o que pode parecer simples e mera questão prática não é, exige imaginação dos pais, capacidade de inventar histórias e oferecer ilusão através de estratégias – ao tratar o cocô como peixinho, tubarão, nadando no mar, mergulhando no oceano -, de respeito – dando tchau, batendo palma de encorajamento para o mergulho e sobretudo, de delicadeza – por saber a importância afetiva do que está sendo vivido.

Crianças, quando estão prontas para ir adiante aceitam a retirada da fralda por amor aos pais, por perceber seu empenho em que isto se dê, por querer agradá-los. Ficar grande, dormir na casa do amigo ou poder ir para o primeiro acampamento, pesa também nesta balança que faz as crianças quererem ir para a frente.

Se tivermos calma em viver com os pequenos este momento e dermos a eles o tempo que necessitam, a despedida da fralda acontecerá e, com sorte, dela restará a lembrança de um momento, muito inicial, em que acreditaram ser poderosos e artistas.

 

formaes Silvia Lobo,
 Socióloga e psicanalista 
 Escreve a coluna "Emoções Infantis",
 no portal Jardins da Infância.