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O “Lado Z” da maternidade

 

Não é preciso tornar-se mãe para conhecer o “Lado A” da maternidade. O lado da frente, o que aparece primeiro. Todos sabemos o quanto ter um filho é uma experiência única e realizadora para a maioria das mulheres. A magia da gestação, o encanto da longa espera, o momento do nascimento, o primeiro choro, o primeiro colo, a primeira mamada, e uma infinidade de outras primeiras vezes, estão eternizadas em fotos reais, imagens de campanhas publicitárias, textos, e depoimentos por toda parte. Não há dúvidas e ninguém vai discutir: ser mãe, é tudo de bom.

Por outro lado, basta o primeiro anúncio de que um bebê está a caminho, para que os palpiteiros de plantão comecem a bombardear a futura mamãe com  o “Lado B” da maternidade, aquele lado que nem todo mundo que está de fora, consegue ver.  “Aproveita para dormir agora, porque depois que nascer você não vai dormir nunca mais”. “Olha, vai fazendo preparação para amamentar que não é fácil não, viu. Dói e chega até a sair sangue. Isso quando o leite não seca!”.

É indiscutível que a maternidade tem sim seu lado difícil. Vai dar sono, vai dar fome, vai dar vontade de chorar. Em você, e no seu bebê. Vai dar cólica, vai dar medo, desespero, vai cansar bastante. O bebê vai ficar doente e você não vai saber que remédio dar. Você vai ficar doente, e não vai saber que remédio pode tomar. O cabelo vai cair. Seu e dele. Geralmente o peito cai também. E nesse caso, só o seu. Você vai descobrir que aquelas propagandas de repelente em que bebês dormem como anjinhos, são na verdade, pura propaganda enganosa. E que aquelas fotos de celebridades lindas e magras saindo da maternidade, devem ter sim, uma boa carga de photoshop. Mas então seu bebezinho sorri para você, e faz um barulhinho. Segura no seu dedo, e adormece no seu colo. Aí o mundo para. E do que era mesmo que nós estávamos falando? Ah, de como ser mãe é bom né?!

Sim, ser mãe é um sonho, uma maravilha, é padecer no paraíso! Certo? Não, errado. Ser mãe é muito bom, mas não todo dia, e nem o tempo todo. Porque algumas vezes, seu bebezinho não vai sorrir para você depois de chorar por dez horas seguidas. Ele vai é chorar outras dez. E quando ele crescer mais um pouco, não vai mais segurar no seu dedo, vai é ficar puxando a sua roupa. Mesmo sem muita força, vai te bater.  Vai te xingar. Vai chamar o vizinho de gordo na frente do vizinho. Vai desaparecer no shopping. Vai te testar. Vai te mostrar a que veio, porque veio, e te lembrar todos os dias de quanto um filho muda a vida da gente.

Se você não é mãe, e ainda pretende ter filhos, pare de ler este texto agora, porque pode ser que você não entenda. O conteúdo daqui para frente pode ser pesado, real, dramático e nefasto: trata-se do “Lado Z” da maternidade. Aquele lado sombrio, que a gente tem, mas finge que não tem. Não por mal, mas porque não conseguimos admitir nem para nós mesmas o que pensamos, fazemos, e dizemos, quando aquela parte medonha de nós, a “Mãe-monstra” entra em ação.

Quem nunca deixou um filho se entupir de tranqueira em uma festinha para não ter que dar comida depois? Eu que sim!! E que mesmo vendo aquela criança sujinha não resistiu à tranquilidade do sono do filho e pulou o banho, limpando somente os pés com lenço umedecido? Eu que sim de novo! E quem nunca tentou tapar a boca de um filho quando ele não para de gritar e você já está com receio de que a vizinha chame a polícia? Ai, eu que sim de novo.  E de novo, e de novo, e de novo. Eu que sim também para essas coisas nefastas e horrendas que eu e você estamos pensando e eu nem tenho coragem de confessar.

O “Lado Z” da maternidade parece cruel com os filhos, mas na verdade é mais cruel com as mães. Só de falar sobre ele já me sinto do tamanho de uma formiga. Vem aquela culpa imensa, enorme, pesada, que cai como uma bigorna de desenho animado sobre a cabeça, fazendo um buraco no chão.  E eu fico lá no buraco pensando se quero sair ou se melhor ficar lá escondida mesmo. Mas, e se eu tiver a coragem de confessar, colocar para fora, conseguir o apoio de outras mães, será que então a culpa não melhora, e esse tal de  “Lado Z”, pode se transformar então em uma parte normal de toda e qualquer mãe?

Eu já fingi que estava dormindo no meio da madrugada para não ter que atender um choro de filho. Ao invés de ir acudir já fiquei rezando umas duzentas Ave-Marias pedindo para que o choro fosse um delírio, ou para que a criança simplesmente dormisse de novo. Eu já fiquei mais de meia hora dentro do carro no estacionamento do shopping aproveitando que todos dormiam, abaixei o banco e dormi junto. Também já fiquei dentro do carro sozinha, fazendo hora para entrar em casa só para dar o tempo das crianças estarem dormindo e eu encontrar a casa em estado de paz, e não de guerra. Eu já esqueci de mandar fantasia em dia de carnaval na escola, e já fingi que esqueci festinha de amigo para não ter que levar. Já fiz chantagem com bala, doce e chocolate para as crianças viajarem ou irem para o acampamento. Já falei que ia trabalhar e fui no shopping. Já me tranquei no banheiro com o chuveiro ligado e fiquei jogando no celular. Já deixei um dia inteiro no computador em troca de sossego. Já paguei para minha filha mais velha olhar as trigêmeas por meia hora. Já levei na escola e voltei para casa para dormir. Já escondi chocolate no quarto para não ter que dividir.

Mas tem uma falta grave, gravíssima, que vez ou outra me persegue. Um pensamento terrível, o mais terrível desses dez anos em que me tornei mãe. Preparem-se porque o que eu vou falar é grave. Trata-se do meu momento mãe-mostra-anaconda-super master. Quando em meio a um turbilhão de emoções contraditórias como raiva, amor, frustração, medo, cansaço, filho se jogando no chão, outro brigando, outro fazendo cocô no chão, outro perguntando se pode jogar no computador e outro assistindo TV no máximo volume,  você se pergunta: “O que foi que eu fiz para merecer isso?”

E poderia sair como um desabafo, acompanhado de uma sensação de alívio, se não fosse tão horrível e se não tentássemos a todo custo calar o que já foi dito, como se isso fosse de fato diminuir nosso amor pelos nossos filhos, ou fazer de nós, menos mães.

Então vamos lá, coragem que o confessionário está aberto. E eu estou aqui em busca de um mundo melhor para nós mães, puxando o coro, com um medo enorme de que ele seja na verdade um solo silencioso, e que em poucos minutos após a publicação desse texto eu seja abordada pela polícia, vigilância sanitária, e ativistas dos Direitos da Criança.  Portanto, mães de todas as idades, raças, credos e número de filhos, se vocês se identificarem com qualquer um desses meus “delitos”, curtam, compartilhem, comentem, mas não me deixem só, porque o fardo da maternidade está ficando cada vez mais pesado para carregarmos sozinhas. E como já está provado também, que toda mãe é um pouco ninja, tenho certeza que juntas podemos muito, mas muito mais!

Agora, se você é mãe, e não se identificou nem um pouco com esse texto, por favor não me julgue, porque julgar as atitudes alheias é também parte desse lado sombrio que temos, desse medo oculto de sermos menos-mães. Esqueça essa nossa necessidade de afirmar nosso imenso amor aos filhos, e comece dando o bom exemplo: aqui, como na vida, muitas vezes a melhor opção é pular o post.

formaes SABRINA MARTINS SCHVARCZ, 
 Jornalista por formação, bailarina por paixão, 
 mãe (de 5) por vocação e 
 diretora do BALLET CARLA PEROTTI por opção.
 http://bcperotti.com.br

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24 comentários

  1. Luiza

    Adorei o texto e é exatamente assim!!!
    Somos mãe e isso consome boa parte dos nossos dias e pensamentos, mesmo de quem trabalha fora o dia todo como é meu caso.
    O difícil é lembrar que somos humanas, temos nossas frustrações, momentos de cansaço, mau humor e até preguiça. Mãe não é robô.
    Que atire a primeira mamadeira quem nunca fez nada disso. (e para evitar o galo, incluo aqui o famoso não escovar os dentes pq o filho dormiu enquanto mamava! Quase sempre escovo com ele dormindo, mas as vezes não vale o risco…rs)
    Bjos!

  2. Stephanie Lucena

    Sabrina, você é minha inspiração!! Você pode tudo isso e muito mais, eu mãe de apenas 1 já fiz muito disso!! Somos humanas primeiramente, e apesar de querermos muito a perfeição não existe!!
    Seus filhos são lindos!! Beijos

  3. Carol Riera

    VOCÊ NÃO ESTÁ SÓ!
    Amei o texto, cada palavra, cada desabafo… Tenho 1 filha só e passo por isso, imagino vc mãe de 5! Já fiz tudo o que vc descreveu no texto, sinto a culpa e a bigorna de desenho animado caindo naminha cabeça quase que diariamente…
    Odeio quando me cobram uma perfeição impossível, como se o fato de eu ter me tornado mae anula alguns aspectos da minha personalidade como a impaciência, o pavil curto e etc… lógico, minha filha me faz querer ser uma pessoa melhor, mas isso não quer dizer que só pq sou mae vou virar um buda! Tenho meus deslises tb, e isso não quer dizer que sou uma péssima mae, só reafirma o óbvio: sou humana!
    Enfim: VOCÊ NÃO ESTÁ SÓ!
    e… AMEI O TEXTO….

  4. Rosiqueli Nakada

    Adorei !

  5. Lídia

    Noooossa! Me identifiquei bastante! Nunca tinha lido um texto de mãe para mãe tão real! Parabéns!!

  6. Flávia

    Ahhhhh, que alívio! Não estou só nessa! Esse texto me soou como um grito de liberdade às vésperas do dia das mães! É isso aí, a maternidade tem seus ônus e bônus, suas glórias e derrotas, o lado A é o lado Z! Amei o texto!

  7. Juliana

    Sera que sou menos mae ainda porque as vezes passo por isso e nem sempre me sinto culpada? rs. Gostei muito do seu texto Sabrina, com certeza sera libertador para muitas que lerem.

  8. Carolina

    Eu também com certeza!!! Você não está só!! E olha que eu só tenho uma filha hein? Neste caso minha situação fica mais grave……..

  9. Karina Lorenzetti

    Nem preciso comentar, né Sá????
    Já tive vontade de fugir e voltar depois de 5 anos….mas ai vem a culpa, a depressão….
    Entramos filha na maternidade e saimos mãe….e para isso não existe curso….só vivência….
    Beijokas
    PS: E vou confessar….acho loucas as que ainda pensam em ter filhos depois do primeiro…..kkkkkkkk…..não é julgamento…..é pelo “meu sentimento” de não aguentaria…..kkkkkk

  10. Gabriella

    Como não se identificar com esse texto. Adorei já fiz tudo isso tb e outras tb. Parabéns pelo texto

  11. Viviane

    AMEI!!! Texto lindo, verdadeiro! Sou sua fa.

  12. Leila Roma

    Sensacional!!!!

  13. Ester

    Querida, você é absolutamente normal. Só não é hipócrita. Queria preveni-la quanto ao que vem por aí. Meu filho tem 23 anos. O mais difícil é deixar o filho crescer, aprender a se virar e se tornar adulto. E você se tornar dispensável… o processo é sofrido para ambas as partes!

  14. Camila

    Adorei, afinal quem nunca!!!!! Já fingi estar com enxaqueca para poder dormir tranquila, e isso incluiu tomara até remédio para que acreditassem em mim…..lado Z….

  15. Carolina

    Acalentador…

  16. Sonia Furtado

    Eu só tenho uma filha, mas já fiz coisas assim ou até um pouco mais, somos humanas e por mais maravilhoso e companheiro que um pai possa ser só sabe a dor e o prazer de ser mãe quem e mãe, me identifique com o texto e e todas temos um lado mãe mostra…….todos temos!!!!!
    Mandou mt bem no #desabafo!!!!!

  17. bethania vieira

    Só uma coisa a dizer:MUITO OBRIGADA por me mostrar que sou normal!

  18. Hilda

    Amei!! Como mãe (há 3 anos, de gêmeos) me encontrei em vááários pontos do texto! Ainda hoje deixei meus twins com minha mãe, para ficar com minha irmã na maternidade, para uns exames, e comentei com ela que muitas vezes me sinto uma monstra, a pior das mães, pela falta de paciência :( e gritos que acabo dando, para desabafar… Funcionam, mas depois vem a culpa :( MUITO BOM saber que não sou tão anormal!!! Apesar de as vezes não parecer, eu AMO SER MÃE! AMO MEUS FILHOS!!

  19. renata kalman

    Eu me identifiquei com tudooooo! Muitas vezes já fui a mãe monstro e muitas vezes já me perguntei por que ter 3 filhos se da tanto trabalho? Mas, no dia a dia, me realizo com cada conquista de cada um de meus filhos, como é bom o amor que sinto por eles!

  20. Daniele

    Amei!!!!!! Dei risada, me emocionei com essa super hiper mega blaster mãe_ Monstra….

  21. Ana Carolina

    Achei que estava só neste barco!!!! Que bom encontrar mães normais, com sentimentos normais!!!!!
    Não me acho mais uma mãe ET!!!!!!

  22. Andressa

    Olá Sabrina, tudo bem?! Sei que seu post foi há bastante tempo, mas procurando pelo termo “Lado B da Maternidade”, o encontrei. E que com foi bom ler e reler suas palavras.
    Sou mãe de uma princesa que acabou de completar 01 ano e me vi direitinho em tudo o que vc escreveu. Amo minha filha mais que tudo no mundo e é ótimo ser mãe, mas como vc disse, não é todo dia. Ser mãe não nos transforma em seres com paciencia eterna.
    Foi ótimo ler seu desabafo pq me mostrou a maternidade do jeito que ela é, cheia de amor e coisas lindas, mas tbm cheia de responsabilidade, cansaço e desafios.
    Foi bom tbm para aplacar um pouco a dita cuja da culpa que ataca sempre…foi tão bom ver que eu sou normal e humana.
    Só tenho uma coisa pra te dizer…MUITO OBRIGADA!!!
    Bjos

  23. Nicole

    Nossa amei o texto me identifiquei com tudo isso, estou passando por um momento muito delicado, não consigo ter paciência, meu filho não dorme, não sei oq fazer, nem respirar fundo adianta mais. Amo ele muito é meu tudo mas tem hrs que dá vontade de sumir mas é bom saber que tem outras pessoas que passam por isso assim não me sinto mais tão culpada. Obrigada

  24. Caroline

    Gostei do texto pq realmente ser mae e dificil e desesperdor sou mae de um menina e ela tem apenas 1 ano é tao dificil e eu sei o vai piorar kkk eu amo o carinho amo minha filha eu ate qe amo ser mae.. porem eu tbem amava minha liberdade meu banho demorado minha vaidade meu sono … ate mesmo meu banheiro kkkk !
    Mais é bom ser mae.. porem a coragem “talvez” de ter mais um me desespera… pelo fato de que.. mae e quem se vira.. somente a mae e mae