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Memória de elefante

Eu sempre fui uma “boa menina”. Na escola, era estudiosa, quieta, sentava na primeira fila, não esquecia os cadernos nunca, fazia as lições, lia os livros, ajudava os colegas. Filha de virginiana, aprendi a ser organizada, dedicada, caprichosa, e durante muito tempo ainda pude me orgulhar da minha memória de elefante.

Não esquecia nunca dos aniversários da família e nem dos amigos, e ainda tinha tempo e disposição para organizar as mais variadas surpresas. Cestas de café da manhã, presentes especiais, cartões feitos à mão com fitas coloridas, brilhos, laços e botões.

E então eu me tornei mãe. E acreditem se quiser, quando minha primeira filha chegou, pouca coisa mudou. Eu continuei organizada, caprichosa e pontual. Me preparava para as reuniões  da escola. Lia a agenda diariamente. Escrevia mensagens para as professoras em papéis de carta com canetas coloridas. Participava de todas as atividades propostas para os pais como manda o figurino. Se precisava levar bolo, eu ia para a cozinha. Se precisava criar uma fantasia, lá estava eu com tesoura, linha e agulha na mão. Todos os uniformes e materiais sempre devidamente etiquetados com nome e sobrenome, em letras coloridas e com desenhos de borboletinhas, corações, estrelas, bailarinas.

Quando meu segundinho nasceu, um ano e cinco meses depois, eu achei que não ia dar conta. Mas por incrível que pareça, prevaleceu a máxima de que “a ocasião faz o monge”. Eu me tornei ainda mais organizada, mais meticulosa, mais certinha, mais neurótica, mais obsessiva. Organizava cardápios semanais, com receitas e listas de compras. Aliás, fiquei viciada em listas, de todos os tipos. Lista de coisas para fazer em casa, lista de pendências profissionais, listas de convidados, de compras, de atividades, de tudo. Adquiri mania de arrumação e perdia dias inteiros organizando armários, etiquetando gavetas, caixinhas, pastas, estantes de livros, carrinho e esteira de supermercado. O diagnóstico de TOC não tardou a chegar, o que nunca me aborreceu muito, afinal, tem doença melhor que a doença da LIMPEZA e da ORGANIZAÇÃO?

Mas então vieram minhas trigêmeas, e minha vida se transformou em uma grande montanha russa, só que daquelas no escuro. Eu nunca sei o que está por vir, só tenho uma certeza: sempre tem emoção pela frente. Altos, baixos, curvas e muita velocidade.

Só neste ano já foram duas as vezes em que eu cheguei com um dos filhos correndo para passar em consulta médica e fui recebida com um sorriso amarelo dizendo que a consulta era outra hora. Ou ainda outro dia! Porque na vida de uma mãe de cinco filhos não basta chegar alguns minutinhos atrasada, tem que chegar também na hora errada.

Se antes eu não esquecia nunca de nada, hoje raramente me lembro de alguma coisa. Não sem a ajuda da minha agenda, porque na minha cabeça, decididamente, não cabe mais nada. As informações batem na porta e tomam outro rumo, vão embora, como se nunca tivessem passado por perto. Eu esqueço de tudo, desde que dia é hoje até onde eu parei o carro no estacionamento do supermercado. E quando me lembro de uma data especial ou de um aniversário, normalmente ele já passou.

Mesmo a agenda não chega a ser 100% confiante. Porque eu anoto errado, ou esqueço de anotar, ou ainda esqueço de olhar. Eu me transformei em uma criatura imperfeita: perco a hora, fico cansada, não cumpro prazos e nem promessas, chego atrasada, esqueço compromissos. E depois fico me martirizando…. Como pude?

Como pude deixar passar o “mesversário”  de seis meses das tri? Como pude esquecer meu aniversário de casamento? Como pude esquecer o dia da prova substitutiva do meu filho na escola? E o livro da biblioteca que ele perdeu e até hoje eu não repus? Como pude perder a data da primeira reunião de pais da escola das tri? E o dia do lanche coletivo, em que minha filha chegou na escola de mãos abanando? E o aniversário da minha irmã?

A verdade é que muitas vezes eu esqueço de olhar a agenda, e outras vezes esqueço até quem eu sou, fico perdida no meio de tantos afazeres, tantos compromissos, tantas coisas para fazer, para lembrar, para organizar. Trabalho, filhos, casa, marido, família, amigos. E cadê a Sabrina no meio de tudo isso?

Eu gostaria de ter um dia na semana livre para ser só eu. Para acordar tarde sem me sentir culpada. Para comer na hora que desse fome, e não ter um só compromisso marcado para correr o risco de perder. Para me cuidar sem medo de chegar atrasada em uma reunião porque fui fazer as unhas, ou uma hidratação no cabelo, ou jogar conversa fora com as amigas.

Precisamos deixar de lado esse estereótipo da “mãe-perfeita” que tanto nos assombra. Porque mesmo sem existir, ela pode sim transformar nossa vida em um inferno. Isso porque perdemos tempo chorando, quando poderíamos estar fazendo algo que realmente nos fizesse sentir melhor! Correr no parque! Comer brigadeiro! Fazer compras! Desenhar, brincar de carrinho, de boneca, de mamãe e filhinho! Não há liberdade quando a auto-cobrança é maior do que qualquer outra cobrança que venha do mundo externo.

Não que eu seja boa nisso, mas é algo que eu preciso buscar, antes mesmo de tentar chegar pontualmente no horário em todos os meus compromissos. Preciso praticar o desapego, aceitar meu limite e minhas limitações.

Tem uma frase da Clarice Lispector que representa muito esse sentimento. Ela diz “Era o meu sonho ter várias vidas. Numa eu seria só mãe, em outra vida eu só escreveria, em outra eu só amava.”

Mas enquanto não podemos viver esse utopia, acredito que o que vale a pena mesmo é colocar nosso nome sempre no topo da nossa lista. Quem sabe dando o exemplo, nossos filhos não terão essa liberdade que tanto sonhamos para nós!

formaes SABRINA MARTINS SCHVARCZ, 
 Jornalista por formação, bailarina por paixão, 
 mãe por vocação e 
 diretora do BALLET CARLA PEROTTI por opção.
 http://bcperotti.com.br