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Mãe merece férias? – Parte 1

Eu me lembro sempre com muita alegria das minhas férias de infância. Meus pais viajavam e eu ia para a casa da minha avó no interior, comia as porcarias mais deliciosas do mundo, deixava arroz e feijão sobrando no prato, pulava o banho, assistia Roque Santeiro e brincava na casa da vizinha até tarde. No verão íamos em família para a praia, onde aproveitava o sol até escurecer, ficava com a barriga assada da prancha de isopor, a cara branca de Hipoglós e me entupia de picolé de fruta. Se chovia, brincava na lama no melhor estilo Peppa Pig. Férias era sempre sinônimo de diversão, alegria, liberdade e em algumas situações, até anarquia!

Conforme fui crescendo, as férias foram diminuindo de tamanho e intensidade. Algumas responsabilidades já não podiam ser deixadas de lado, como pagar contas,  arrumar a cama, ir ao banco, tirar documento, fazer trabalho de faculdade. Mas nem por isso as férias deixaram de ser especiais e esperadas. Sempre gostei muito de viajar, conhecer lugares novos, curtir a família, o namorado, as amigas, não ter hora para acordar, tomar sol, dormir em dia de chuva, e não sofrer da terrível síndrome do domingo à noite, ou, como costumo chamar, ansiedade de separação do fim de semana.

Mas então eu me tornei mãe. Mãe de um, de dois, de três, de quatro, de cinco crianças lindas e cheias de saúde e energia! E minhas férias, que sempre coincidem com as férias escolares, foram ficando cada vez mais com cara de trabalho. E o retorno às aulas e ao trabalho, com cara de descanso.

Durante as férias, eu penso em vários programas para fazer com as crianças, mas sair com os cinco ao mesmo tempo não é sempre tão divertido. Especialmente porque é difícil encontrar algo que agrade a todos. Então eu resolvo sair primeiro com minha filha mais velha, de dez anos. Vamos ao shopping, entramos nas lojinhas de acessórios e de roupas da moda, compro um sapato, um batom, e juntas almoçamos em  algum restaurante legal, mas sem cardápio infantil. No dia seguinte é a vez do meu segundinho, de 9 anos, ir ao fliperama, e jogar até acabar o cartão pela última vez umas três vezes. Comemos hamburguer com batatas fritas, tomamos sorvete, passamos para pegar a mais velha que ficou na casa de alguma amiga, e terminamos o dia jogando carta Pokemon, ou batalhando na arena de Bey-Blade.  No terceiro dia, eu levo as tri para o parque ou para um piquenique na praça, corro atrás da bola, das meninas, dos brinquedos espalhados  pela grama. Chego em casa exausta e ainda tenho três banhos pela frente, três jantas para dar, três para colocar na cama. E quando ja estão dormindo o sono dos justos, olho pro sofá e vejo mais duas crianças para coordenar banho, jantar e cama. E viva, ainda tenho vinte e sete dias de férias pela frente!

Quando estou de  férias, eu entro na piscina quando queria tomar sol, eu acordo cedo mesmo querendo dormir até tarde, eu vou todos os dias ao shopping e não consigo nem passar na frente da loja que eu queria, ou comer no restaurante que eu gosto. Viajar em família passou de sonho distante a pesadelo próximo. Podem me chamar de preguiçosa, mas eu desisto só de pensar em fazer as malas, carregar o carro, e ficar rezando para ninguém ter diarreia na viagem.

Viajar de avião com todos deixou de ser uma opção que eu considere viável pelos próximos cinquenta anos depois das últimas férias de verão. As trigêmeas brigaram e choraram o tempo inteiro porque queriam sentar do meu lado, e eu, por uma ironia do destino, nasci com apenas dois braços, dois peitos, dois olhos, duas pernas e dois lados. Avião daqui para frente, só se for jatinho particular. Porque já que o chororô será inevitável, pelo menos não terei que passar pela vergonha de ver as pessoas pedindo para mudar de lugar e ter que encarar tantas caras de indignação e piedade diante da minha pequena tragédia familiar.

Diante de tudo isso, que outra conclusão podemos chegar senão a de que, sendo mãe de muitos ou de poucos, em maior ou menor intensidade,  pelo menos por um tempo, perdemos o direito do descanso nas nossas férias, certo? NÃO, e aqui cabe um NÃO bem grande, do tamanho da minha família! Porque “A arte do descanso é uma parte da arte de trabalhar” e nem fui eu quem disse isso, mas um escritor nova iorquino chamado John Steinbeck. Um sujeito inteligentíssimo que frequentou a universidade de Stanford, escreveu vários livros e teve dezessete de suas obras adaptadas para filme por Hollywood, inclusive sendo indicado ao Óscar em 1944. Meu novo guru, com certeza autor do livro que vou escolher para ler no avião, na minha próxima viagem de férias.

Sim, porque nas minhas próximas férias, eu vou ler no avião, e não vai ser a biografia da Galinha Pintadinha, nem mais um livro da série “Diário de uma garota nada popular”, ou “Diário de um banana”. Eu vou arrumar uma mala pequena, com uns 10 looks sob medida para mim! Vou chegar cedo no aeroporto, ficar passeando no duty free, jogar candy crush na sala de embarque e ficar entediada durante o voo. Se tiver criança chorando no avião, coloco o fone de ouvido, escolho um filme e pronto. Vou viajar com uma bolsa tiracolo, sem mala de mão, sem farmacinha, lanchinho, mamadeira, e nem uma brinquedoteca de bolso.

Parece mentira, mas é verdade: a mamãe aqui vai sair de férias! Durante uma semana inteira, vou ao banheiro só para as minhas necessidades, vou  acordar entre amigas, e jogar conversa fora nos restaurantes que eu escolher.  Vou dormir quando quiser, se quiser, e até a hora que eu quiser. Inclusive depois do almoço, ou antes do esquenta, se assim der vontade. Vou dar um beijo enorme  no Mickey e na Minnie, procurar pelas minhas princesas prediletas,  e correr em direção ao castelo da Cinderella gritando “Livre estou! Livre estou!”.  Dessa vez, vou emprestar minhas preocupações e responsabilidades para o papai por sete dias, e tenho certeza que ele e as crianças vão se divertir muito na minha ausência. Vou sentir saudades, vou lembrar das crianças a cada minuto, em cada loja, em cada atração, o tempo todo. Vou ficar olhando fotos e videos no celular, comprando presentes, e imaginando como será doce o reencontro! Mas sofrimento mesmo, não combina comigo, e não combina com férias também. Vou feliz, saltitante e serelepe, porque  nessas férias, a criança da vez, será minha criança interior.

E na semana que vem eu volto aqui para contar tudinho para vocês, com a parte 2 das férias da mamãe, direto da Disney.

 colaboradoraSABRINA MARTINS SCHVARCZ, 
 Jornalista por formação, bailarina por paixão, 
 mãe por vocação e 
 diretora do BALLET CARLA PEROTTI por opção.
 http://bcperotti.com.br

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2 comentários

  1. Fernanda Feres

    Arrepiei!!! Contando os dias pras nossas férias!!! Let it go!!!!! ❤️❤️❤️❤️

  2. andrea tedeschi

    Ameiiiiii!!!!! Tb quero.