categorias: Vida de Mãe

Um dia tudo mudou…

A mãe de um menino lindo de 1 ano de idade, recebeu a notícia que ninguém gostaria de ouvir: Estava com câncer de mama.

Vejam o texto que ela preparou, cheio de verdades, vida, alegria, esperança e principalmente muito amor!

Tenho certeza que servirá para todos aqueles que passaram, passam e poderão um dia passar por isso.

Ela pediu para se manter no anonimato porque muitas pessoas de seu convívio ainda não sabem da doença.

 

“Um dia tudo mudou, de repente, sem aviso. Perdi o controle que eu achava que tinha sobre minha vida, com os meus planos cuidadosamente traçados para o futuro. Em uma tarde como outra qualquer, durante uma consulta médica de rotina com o meu ginecologista, descobri um câncer na minha mama direita. Eu, que já tinha sido assaltada algumas vezes nessa cidade maluca, senti novamente um revólver apontado pra mim. Só que dessa vez, ninguém queria o meu celular, a minha bolsa ou meu relógio. Era a minha vida que estava em jogo e não dependia de mim entregar nada para me livrar daquilo. Acho que é assim que as pessoas se sentem quando recebem uma notícia dessas. Fiz mil exames de imagens e uma biópsia. Era uma quarta-feira. Na sexta veio o resultado, era maligno. Além disso, era grande e agressivo. Meu mundo desabou. O pânico se instalou e eu comecei a tremer de verdade. Com os olhos inundados de medo, disse olhando fundo para o meu médico enquanto o chacoalhava pelos braços “Não me deixe morrer! Eu preciso criar o meu filho! Não posso morrer agora”. Ele me olhou fixamente de volta e afirmou “Não vou deixar, te prometo”.

Assim fui para um mastologista que me examinou e me disse que o melhor tratamento para o meu caso seria começar pela quimioterapia. Com a cabeça baixa e os braços esticados sobre a mesa do consultório, comecei a chorar de novo. Quimioterapia? Eu? O que vai ser de mim? Vou aguentar? Vai dar certo? E meu cabelo? Só quem vive um momento assim entende que o cabelo já não é uma questão de vaidade, pura e simplesmente. Ainda mais quem sempre cuidou dele com tanto carinho, como eu. Como boa leonina que sou, meu cabelo era a minha força. Pelo menos eu achava que era. E desde pequena eu era assim. Passava horas na farmácia vendo as novidades e era ótima para “descobrir” um bom produto! E fazia um baby-liss como ninguém… Como sinto saudades dele… É como se um grande amigo tivesse ído embora. Quando alguém me dizia, tentando me consolar, que um dia ele voltaria a crescer, em nada amenizava a minha dor. Não importa se ele irá voltar. A dor da despedida acontece, inevitavelmente.

Saí de lá com uma consulta marcada com um oncologista, um dos melhores do país. Graças a Deus eu tinha os recursos materiais para me tratar no melhor centro de oncologia da América Latina. E nessa roda viva, eu mal conseguia chegar perto do meu filho, com 11 meses na ocasião. Eu pensava que ele não deveria mais se apegar à mim, pois eu poderia morrer em breve. Eu tentava, mas uma voz negativa me dizia que se eu não estivesse mais por perto em pouco tempo, ele precisaria aprender a viver sem mim. E assim eu me afastava e chorava em silêncio no quarto. Pensei muitas vezes que, se eu morresse, ele nem se lembraria de mim no futuro, a não ser por fotografias e histórias que o meu marido iria contar. Como doía… E sempre, depois de me afastar daqueles bracinhos pequenos, uma onda de culpa se instalava no meu coração. Eu passei a viver um misto de emoções. Ao mesmo tempo que queria abraçá-lo e não soltá-lo nunca mais, até o último minuto, não conseguia olhá-lo nos olhos, pois não queria que ele visse lá no fundo, o meu medo. E ele sentiu que alguma coisa estava errada. Voltou a acordar várias vezes à noite, inquieto. Foram dias muito tristes. Mas eles continuaram a passar, a despeito da minha vontade. Graças a Deus.

Chegou então o dia da consulta e fui apresentada ao plano de guerra: 6 sessões de quimio, uma cirurgia e possíveis sessões de radioterapia. Nessa ordem. O meu câncer era realmente grande, mas tinha cura. O médico então me olhou e me perguntou “quando vc quer começar?” Eu respondi “agora Doutor, pode ser?” E ele surpreso me olhou e eu completei “É que hoje faltam 6, mas amanhã faltarão 5”. Ele me aplaudiu com um olhar de admiração e correu para preparar o meu leito. Enquanto a enfermeira procurava a veia para começar a infusão, eu respirei fundo, de mãos dadas com o meu marido e rezei. Rezei para todos os santos que eu conhecia. Pedi pelos meus avós que já haviam partido, por Deus e por Nossa Senhora. E esse pedido sempre foi o mesmo “me deixem ver o meu filho crescer”. Em pensamento, conversei com o meu corpo, convoquei as minhas células saudáveis, como um general reúne um exército, e pedi que fossem fortes. Expliquei que para vencermos essa guerra, algumas precisariam morrer para que outras pudessem viver. Toquei a minha mama, quase toda tomada pelo tumor e ali mesmo me despedi. De ambos. Agradeci à ela por ter alimentado o meu filho e perdoei o meu tumor, por ter que nos separar.

Hoje, já se passaram 64 dias e já fiz a minha quarta sessão. Meu cabelo se foi, mais rápido do que eu gostaria. A despedida foi dolorida, mas foi suportável. Me recusei a me olhar no espelho de frente, sem peruca, por alguns dias. Mas no meu tempo, sem forçar a barra, encarei o espelho e pensei “que amor próprio é esse que precisa de um cabelo para existir?”. E passou. Era mais uma batalha que eu vencia nessa guerra. Voltei a ficar com o meu filho (nunca consegui me afastar de fato), a beijá-lo e abraçá-lo todas as vezes que não estava fora de casa me tratando. Expliquei à ele, na esperança de que ele entenderia, que a mãmae estava dodói e que para sarar tinha que tomar um remédio chato. Por isso, de vez em quando, precisaria parar para descansar no meio do dia. Ele voltou a ficar calmo, a domir a noite inteira. Acho que ele entendeu alguma coisa.

Aos poucos fui aceitando a realidade como uma benção e não mais como um castigo. Entendi que o plano de Deus não era me levar, pois o tumor regrediu muito já na primeira aplicação. Foi quando percebi que “quase morrer” era um presente. Tive recaídas de choro, de indignação. Mas a realidade era melhor do que eu imaginei no começo. Muitas vezes desejei que o tempo passasse mais depressa, para que eu pudesse “acordar” daqui há um ano. Mas nessas horas, eu via o meu filho começando a andar e desejava que o tempo parasse. Foi então que fiz as pazes com o tempo. Entendi que ele passa no compasso certo, nem mais rápido, nem mais devagar. Entramos em um acordo e passei a viver no “agora”. Deixei de me preocupar se conseguirei ter mais filhos no futuro, pois basta um (vindo de nós ou de outra pessoa) para uma mulher se tornar mãe. Graças a Deus eu já tenho o meu pequeno milagre.

Estou escrevendo aqui para tentar ajudar as mães que estão passando por isso. Mas também para dizer às outras que a vida é feita no hoje, no agora. Que não importa o que ela nos dê, somos capazes de aguentar. Venha o que vier.

Quem me conhecia teve muito medo que eu entrasse em depressão, que eu não seguraria a onda. No entanto, movida pelo amor do meu filho, pela esperança dos meus pais e pelo carinho da minha família, dos amigos e da minha fé, eu me levanto todos os dias cedo, me arrumo, passo uma bela maquiagem, coloco a peruca e sigo em frente.

Hoje eu consigo respeitar o tempo como quem adora um santo. Deixei de me preocupar se me filho começaria a andar com 1 ano ou antes disso. Não me preocupo mais com bobagens dessa natureza… Se ele já tem todos os dentes previstos para a sua idade, se ele vai falar cedo ou tarde, se vai gostar de matemática ou se vai ficar de recuperação um dia. Cada um tem o seu tempo. E com ele não podemos negociar. Temos que respeitar o seu compasso.

Hoje sei que tudo passa, os maus e os bons momentos. Dos maus, levaremos lições importantes e a certeza de que somos fortes. Levaremos também amigos mais fiéis que se mostraram mais especiais quando a vida apertou pra valer. Dos bons, levaremos as lembranças que nos farão sorrir sem percebermos, quando lembrarmos de um momento feliz no intervalo da novela. Assim, sem querer. Levaremos fotografias de sorrisos e abraços tiradas com o coração. E para sempre, teremos a certeza de que o tempo cura, a alma e o corpo.

Um beijo à todas e me desculpem pelo texto longo…”

Mãe anonima.

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4 comentários

  1. Claudia

    Que relato emocionante, a você mãe o meu respeito pela coragem ,o meu carinho pela guerreira e um grande beijo na vencedora .

  2. Flávia

    Querida, você já está desde já em minhas orações, mesmo sem saber seu nome. A cura é certa, acredite, mantenha-se otimista e segure-se firme nesse amor materno quando estiver num momento triste, pq esse amor vai te levantar, como tem sido até agora. Um grande abraço, Flávia

  3. Helena

    Parabens pela coragem! Com certeza sua atitude e vontade de vencer foram e estao sendo cruciais para sua cura. Ela virá! Continue firme. Obrigada por compartilhar com esse grupo, servirá de motivaçao para outras que também enfrentam uma situaçao parecida. Um beijo grande.

  4. Adriana M Baptista

    Lindo relato! Força querida!!