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BIG MOTHER: O dia a dia de uma mãe de cinco

Muitas pessoas me perguntam sobre como é o meu dia, como eu faço para me para me organizar com os cinco filhos, como eu sobrevivo tendo que trabalhar fora durante a semana, como eu consigo arrumar tempo para cuidar de mim. Pensando em tudo isso, resolvi fazer um “reality show” literário e descrever meus dias do começo ao fim, durante uma semana.

Acontece que, devido a alta demanda de coisas para fazer, acabei relatando detalhadamente o primeiro dia, a metade do segundo, e depois, quando fui escrever o resto, não lembrava mais de nada, já estava fazendo confusão dos dias e achei melhor ficar por aí mesmo. Mudança de planos no meio do caminho. Acontece quase todos os dias por aqui! E tudo bem, afinal dia na minha vida, muitas vezes vale por uma semana inteira!

O meu “hoje” sempre começa “ontem, já que sem planejamento eu nado, nado e não saio do lugar. Já deixo preparadas as lancheiras e malas das crianças na noite anterior para não precisar madrugar no dia seguinte. De fato, salvo as vezes em que a Laurinha madruga simplesmente porque o sono dela acabou, não preciso acordar tão cedo. Tenho um combinado com meu marido que ele é responsável por preparar os filhos maiores, Luana, e Alex, no horário da manhã, enquanto a babá chega cedinho e ajuda com as trigêmeas Melissa, Cecilia e Laura.
Eu até poderia ficar de boa na cama um tempinho a mais não fosse minha já instalada mania de acordar cedo. Para suportar o volume dos gritos, choros, brigas e da correria típica de uma manhã de segunda-feira na cama, eu teria que ser do tipo dorminhoca nível máximo.

Hoje especificamente levantei por volta de sete horas, ansiosa para ver as tri saindo de calcinha para ir para a escola pela primeira vez. Ainda deu tempo de comemorar um xixi no peniquinho, dar umas broncas no meu sempre preguiçoso filho, dar muitos beijos e abraços em todos, e então lá pelas sete e meia os cinco saíram acompanhados do pai rumo à escola.
Silêncio em casa, vontade de voltar para cama e dormir ate meio-dia… Só que não! Resolvi me animar hoje para voltar com exercícios e cuidar da alimentação, porque ando muito descuidada comigo, e estou precisando perder uns quilos que ganhei nos últimos meses. E para quem acha que eu não preciso disso, eu digo que preciso sim, aliás, todas nós precisamos de cuidado, de carinho, de auto-afago. Sempre.

Nem sei como, mas comecei a segundona com pique total! Fiz um suco verde, comi duas torradas integrais com cream cheese light, me troquei, e fui para a esteira na academia do condomínio. Consegui correr 5km em pouco mais de quarenta minutos. Pouco para quem já correu 10km por dia em uma hora, mas até que não foi uma marca tão ruim para quem está há mais de três meses em estado de inércia total. Sem falar dos últimos três anos sem atividade física regular.

Tomei um banho, me troquei e fui dar aula. Para quem não sabe, sou diretora de uma escola de ballet, e ainda dou aulas regularmente. Ficar em sala com as crianças é algo que me revigora e que me enche de energia para enfrentar o dia com muito bom humor. Eu brinco, dou risada, rolo no chão, abraço e beijo muito, e me divirto com cada uma delas e seus comentários únicos sobre a vida.

Saí da escola às onze e meia e parti para a missão “reabastecimento do lar, já que minha geladeira e despensa estavam dando eco de tão vazias. Primeiro, hortifruti, e depois supermercado. Entre as coisas que comprei, duas dúzias de laranja pera, oito peras, uma dúzia de banana, três mangas, um abacaxi, meia melancia, oito batatas, cinco pés de alface, duas dúzias de ovos, seis kiwis, 1kg de uva, seis ameixas, dez batatas, oito cebolas, dez tomates, oito cenouras e mais algumas outras coisas. Com sorte deve durar a semana inteira. Menos as bananas, mas todas estavam muito maduras então não deu para comprar mais. No meio da semana eu passo no mercado e reabasteço.

Cheguei em casa perto de uma da tarde, almocei correndo com o marido, que chegou trazendo a filharada da escola. A empregada avisou que eu esqueci de trazer o sal, a babá avisou que na sexta feira vai ter que chegar mais tarde porque tem médico, e ainda aproveitei para ler as agendas das meninas para saber como foi o desfralde. Xixi na privada, xixi na calça e coco na calca. É, acho que estamos indo bem. Tudo isso, durante o almoço, entre uma garfada e outra.

Estava preparada para sair para trabalhar às duas horas quando minha filha mais velha me lembrou que ela tinha dentista. Fui conferir minha agenda e BINGO, ela estava certa! Ainda bem que a memória da Luana é melhor que a minha! E que eu não tenho chefe, porque se tivesse, com certeza já estaria na rua.
Saí correndo para o dentista, onde tive a confirmação de que minha primogênita vai mesmo ter que usar aparelho, em cima e em baixo. Serão de doze a dezesseis meses de aparelho fixo, depois mais dois a quatro anos de contenção. Tudo vai depender se ela vai ou não ter os dentes do siso. Até agora não apareceu nada na radiografia. Será que ela é evoluída e nasceu sem juízo?

O custo do aparelho não é nada animador, já que além do valor do aparelho, tem um valor mensal de manutenção durante todo o tratamento. Lá vai mais um custo fixo para a minha planilha de despesas domésticas. De qualquer forma, fiquei mais desesperada mesmo, com a notícia de que ela terá que ir ao dentista DUAS vezes por mês, pelo menos nos oito primeiros meses iniciais! Sinceramente não sei como vou conseguir organizar essas consultas na minha agenda. Mas como “o que não tem remédio, remediado está”, marcamos a consulta de “instalação” para próxima semana, e resto vou vendo depois. Um dia de cada vez, sempre, para não cair em desespero. Filha feliz, mamãe nem tanto. E vamos ver quanto tempo vai durar a felicidade da minha pré-adolescente.
Já estava saindo do consultório quando a secretária me lembrou que já estava na hora de marcar uma limpeza nos dentes das tri. Abri a agenda, porque sem ela não sou ninguém, e entre horários de terapia do Alex, da Luana, minha, oftalmologista, exames, reunião de pais, de professores e outros compromissos, consegui um horário em abril para cuidar dos dentes das minhas pequenas.

Estava caminhando em direção ao carro quando senti meus pés grudando no sapato. De repente, uma sensação desagradável. Muitas vezes falta mesmo dignidade para nós, mães. A Melissa estava fazendo xixi no tapete na hora do almoço, e eu peguei ela correndo para colocar no penico. Claro que deve ter escorrido um pouco de xixi no meu pé. Nessa hora eu só conseguia pensar em chegar logo em casa para tomar um banho e me livrar daquele sapato grudento.

Cheguei em casa um pouco depois das três horas, e as tri tinham descido para passear com a Fiona, a yorkshire da minha amiga que está em casa passando uns dias. Eu explico: a Luana é LOUCA por cachorros, mas por motivos óbvios, eu estou resistente em ceder ao desejo dela de adquirir um cão. Como ela passeia sempre com a cachorra desta minha amiga e vizinha, agora que ela foi viajar, me ofereci para acolher essa hóspede pra lá de especial! As crianças estão amando a companhia da Fiona, e as trigêmeas em especial adoram levar a Fifi para passear.

Aproveitei o relativo sossego para resolver algumas questões de trabalho, tomar um banho e recuperar minha dignidade. Em menos de meia hora Melissa, Cecilia e Laura entraram pela porta lindas e serelepes em seus modelitos calcinha-camiseta. Cecilia fez xixi no peniquinho, Melissa também, e Laura nada, segue segurando até não aguentar mais. Muita comemoração, mais uma rodada de adesivos e dessa vez teve Cinderella, Aurora e Gatinha Marie. Prometi para a Laura que quando ela fizesse xixi no penico ia dar para ela um da Branca de Neve. Mas nada feito, dessa vez foi na calcinha de novo.

Verifiquei a lição de casa do Alex, encaminhei meu menino para o banho e juntos tomemos um lanche especial, tapioca! A minha com requeijão light, a dele com chocolate, claro. Brinquei um pouco com as tri, deixei a Luana separando as roupas para a mala do acampamento da escola e saí com o Alex para o primeiro dia de terapia dele. Na verdade, o segundo, mas é que o primeiro não aconteceu porque eu cheguei uma hora depois, crente que estava no horário certo, e tive que ir embora com o rabinho entre as pernas e a maior culpa do mundo nas ombros. Detalhes que vem com a multi-maternidade.

A parte mais difícil de ter muitos filhos é ter que se dividir para dar atenção a todos. Ainda mais quando você tem três filhas pequenas ao mesmo tempo, que requisitam sua atenção sem parar. Tentei resolver a situação sozinha, mas não consegui. Luana e Alex estavam ficando muito “revoltados”, então me dei por vencida e me rendi a terapia para os dois. Luana começou no ano passado, e o Alex está começando agora. E eu tenho mais duas linhas de custo fixo na planilha e mais dois horários comprometidos na semana. Sem falar de uma desagradável sensação de fracasso, por não conseguir dar conta das questões dos filhos, de precisar de ajuda de fora para lidar com as questões de dentro da nossa casa. Mas quando não há muito tempo para lamentar, melhor deixar essa sensação de lado e aceitar ajuda profissional.

A sessão foi ótima. O Alex chegou bem resistente, mas acabou contribuindo positivamente e saímos todos muito animados, com boas perspectivas. Minha lição de casa é bem simples: elaborar um cardápio com o Alex, para que ele coma melhor, e incluir receitas do programa “Tem criança na cozinha”, que ele adora. Consertar o aquecedor para que ele reclame menos de ter que tomar banho e liberar a minha banheira de vez em quando para ele poder se divertir nessa hora também. A psicóloga elaborou um sistema de pontos, sempre que ele cumprir com os combinados (acordar no horário e se trocar sozinho, fazer lição, tomar banho, desligar o computador na hora combinada, comer bem) ele ganha um ponto e se até o final da semana tiver juntado quatro pontos ele ganha R$8,00 que ele poderá juntar para ser um membro VIP no minecraft. Esse é o sonho de vida dele. O meu é ter uma assistente pessoal, uma governanta, um dia livre na semana para não fazer nada, outro para cuidar só de mim, e ainda ir viajar sozinha uma vez por mês.

No caminho para casa passei correndo no supermercado para comprar sal, e consegui chegar em casa às seis horas. As trigêmeas já estava jantadas e de banho tomado, e me chamaram para assistir “Galinha Pintadinha”. Enquanto eu estava sentada no sofá com as três se empilhando no meu colo o Alex gritava querendo saber onde estava o computador que eu tinha escondido, e a Luana brincava de pega pega com a Fifi pela casa. Delícia. Dançamos “Pai Francisco entrou na roda”, ainda rolou mais um xixi no penico, e mais um adesivo para a Cecilia! E dessa vez não teve princesa, ela quis mesmo do Mc Queen.

Quando deu sete horas levei as trigêmeas para o quarto, li uma historinha e dei as mamadeiras. As três mamaram, escovaram os dentes, coloquei as fraldas e foram todas para as caminhas. O processo de dormir era bem mais fácil na época do berço. Agora sempre rola um senta, levanta, desce, sobe, foge, acende a luz, apaga, conversa, canta, deita de novo. Mas elas estavam cansadas, e em pouco mais de dez minutinhos se renderam ao sono dos justos e foram descansar nos braços de Morfeu.

Corri para o quarto da Luana para ajudá-la com a mala do acampamento. Conferi os itens da lista, coloquei tudo na mala e separamos uma roupa para ela usar no trajeto de ida. Ela achou a mala muito pequena, disse que as pessoas vão rir de tão mini que é a mala dela! Eu achei a mala ótima, já que colocamos todos os itens da lista de enxoval sugerida pela escola. Ela não se deu por satisfeita e resolveu levar uma mochila gigante para colocar o travesseiro e o lanche dentro. Sem mais argumentos, concordei.

O Alex desligou o computador no tempo combinado, ufa, isso é raro por aqui. Fomos os três jantar, e a Luana não parou de falar um minuto sobre o aparelho e sobre o acampamento. Enquanto eles comiam a sobremesa fui preparando as lancheiras. Separei quatro potinhos com uva, enchi cinco garrafinhas d’água, lavei uma pera, fiz um sanduíche de peito de peru no pão francês, dividi um pacote de mentirinhas em três potinhos e separei um pacote de torradinhas de presunto. Coloquei tudo nas lancheiras, distribui nas mochilas e na geladeira e fui chamar os dois que já estavam assistindo televisão na hora que eu terminei.

Às oito horas desligamos a TV, os dois escovaram os dentes e foram para a cama. A Luana estava no celular conversando com uma amiga e estava pensando em uma desculpa para desligar, afinal, era muito “mico” ter que dizer que estava indo dormir essa hora da noite. NINGUÉM dorme oito horas da noite, só ela! O Alex foi para a cama bonzinho, e ficou esperando pelo PONTO, um pedaço de papel escrito 1P, que ele colou no mural da parede com muito orgulho.

Fui para o meu quarto, fechei a porta, deitei na cama e peguei o celular para meu momento de descanso. Fui acordada pelo meu marido depois das onze da noite. Ultimamente tem sido sempre assim. Eu termino de colocar as crianças na cama, deito e apago do jeito que estou. É péssimo porque depois eu ainda tenho que acordar para trocar de roupa, tomar banho, e as coisas que tinha para fazer acabam ficando para trás. Sem falar que sono picado é ruim, péssimo. Eu digo isso para mim mesma todos os dias, mas não consigo fazer nada para mudar. Quando chega essa hora do dia, só a horizontal me salva.

Antes de dormir efetivamente me dou conta que esqueci de avisar a psicóloga da Luana que essa semana ela não vai por causa do acampamento. Também tinha a reunião de condomínio, às 19h30, que era hoje e que acabou passando. Eu até me lembrei, mas sem chances de juntar forças para ir. E tem também o marido… Acordei com ele, almocei com ele, dormi com ele, mas se troquei três palavras com ele durante o dia foi muito…. E dessas três, duas foram sobre trabalho.

Já houve um tempo em que eu sofri de insônia, hoje deito e durmo quase que instantaneamente. Tenho dias mais e dias menos movimentados, e confesso que hoje foi um dia desses bem intensos. Todas as noites me preparo psicologicamente para o dia que está por vir, e fico me perguntando se haverá um momento em que eu não vou mais viver no “plano B”. Por mais que eu tenha uma rotina bem organizada, nunca todas as coisas estão em seus devidos lugares. Sempre tem um médico diferente para ir, um acampamento de filho, um funcionário que faltou, um carro na revisão, um desfralde, um imprevisto. Ou mesmo um momento de preguiça.

Fico pensando se algum dia vinte e quatro horas por dia serão suficientes para mim. Se com o tempo, eu vou conseguir me organizar melhor, se as coisas vão ficar mais fáceis, ou se eu apenas vou me acostumar com as confusões, os esquecimentos, os atrasos e a correria. Ou se eu vou acabar ficando desorganizada, louca e descabelada com o passar dos anos.

É contraditório, mas os filhos, ao mesmo tempo que são o combustível da nossa vida, esgotam nossa energia. Eles tomam para si a maior parte do nosso tempo, mas por outro lado, nos fazem querer viver cada dia mais e melhor. No meu caso eles podem até ter diminuído minhas horas de sono, mas acabaram com a minha insônia. Eles são meu cansaço e minha motivação, minha melhor parte e o motivo da culpa nos meus ombros.

Ser mãe dos meus cinco amores é de longe a parte mais difícil e maravilhosa da minha vida. É engrandecedor, recompensador, e cansativo ao extremo. Muitas pessoas que esbarram comigo nas ruas fazem cara de pânico quando me veem com cinco crianças. Me chamam de “corajosa”, de “animada”, e até de “louca”. Muitas me olham com respeito e admiração, e eu me sinto toda prosa, toda inflada, orgulhosa de mim e da minha cria. Só não gosto do olhar de pena de algumas pessoas. Tem gente que sente até uma certa aversão, arregala o olho e solta um “Ai credo, coitada de você!”. No fundo eu tenho pena dessas mulheres, porque muito provavelmente, com ou sem filhos, depois de um comentário desses, acho difícil que venham a viver a maternidade em sua plenitude, na forma desse sentimento de sentir-se completa, de dar uma razão à própria existência.

Eu agradeço diariamente por ter saúde e sanidade para viver essa experiência única e rara. Adoro ver meus filhos se empoleirando no meu colo, adoro casa cheia, adoro carro cheio, adoro sair em bando, ser multidão. Eu canso, choro, mas nunca desanimo, e raramente reclamo. Eu tenho sede de viver, não tenho medo de trabalho duro e nem faço corpo mole. Eu acredito muito que na vida a gente tem o que merece. E eu sou uma pessoa de muita sorte por viver em uma eterna festa! Sim, porque na minha casa, faça chuva, faça sol, é sempre Carnaval.

formaes

 formaesSABRINA MARTINS SCHVARCZ, 
 Jornalista por formação, bailarina por paixão, 
 mãe por vocação e 
 diretora do BALLET CARLA PEROTTI por opção.
 http://bcperotti.com.br